Mansur responde Piolla e reafirma dados sobre encolhimento de Foz

Acredito em bons debates para a construção das melhores ideias. Por isto, fico satisfeito quanto à repercussão do meu último artigo FOZ VAI ENCOLHER,  que agitou alguns formadores de opinião da cidade.

Ao comentar na página de um jornalista da cidade meu último artigo sobre a necessidade de repensarmos as estratégias adotadas, nos últimos anos, para a economia de Foz do Iguaçu, Gilmar Piolla, escreveu:

“Perdeu a oportunidade de ficar calado! Apesar das previsões sombrias do nosso profeta do Apocalipse, estamos, com as iniciativas já aprovadas e as que estão em andamento, destravando a economia da cidade. Foz do Iguaçu está prestes a iniciar um novo ciclo de desenvolvimento. Não sei de onde ele tira esses números. Mas que ele maltrata as estatísticas, maltrata. Estudo do Codefoz revelou que a cadeia produtiva do turismo já responde por mais de 1/3 dos empregos diretos e indiretos, formais e informais existentes na cidade. Um em cada quatro municípios brasileiros, segundo o IBGE, já apresenta crescimento demográfico negativo. Imaginem isso em 2044. Foz do Iguaçu não será exceção à regra. Nosso PIB per capita está acima da média regional. Supera, inclusive, o de Cascavel e Medianeira. Sugiro que ele deixe esse pessimismo de lado e nos ajude, com a sua influência e rede de relacionamentos, a construir um futuro melhor para todos os iguaçuenses!”

Em resposta ao seu comentário, esclareço alguns pontos:

“Caro Piolla: apesar de discordarmos com relação aos dados apresentados, sei que nós dois temos em comum um forte sentimento por nossa cidade e um compromisso moral de ajudar em seu desenvolvimento. Também tenho visto seu esforço na gestão municipal para destravar a economia local, e nesse sentido, torço pelo sucesso da empreitada, pois todos ganharão, caso ela tenha êxito. Mas no tocante as nossas divergências, penso que o sucesso econômico de uma cidade dificilmente ocorre por acaso e depende de uma boa estratégia. Uma boa estratégia depende, sim, de uma grande visão de futuro, mas antes de tudo, de um diagnóstico preciso. Por isto, não considero que eu seja pessimista, no sentido negativo do termo ao apontar para dados os quais muitos não estão querendo enxergar. Somente com debates francos, respeitosos, construtivos e profundos vamos conseguir tomar as melhores decisões para nossa cidade. Desse modo, já estou preparando um novo artigo para responder, ponto por ponto, as suas afirmações de cunho técnico, acima apresentadas. Discordo, então, de sua sugestão para que deixe de lado o pessimismo e ajude a cidade, pois entendo que com o estudo que venho fazendo com minha equipe estamos, sim, fazendo nossa parte para construir um futuro melhor para todos os iguaçuenses. Aguardo uma oportunidade para que possamos conversar pessoalmente e discutir esses números, inclusive com mais pessoas que também se interessam pelo bem da nossa cidade. Abraços”

Então, conforme o prometido, seguem as respostas dos pontos técnicos apontados por ele como inconsistências de meu artigo anterior:

1.                “Não sei de onde ele tira esses números. Mas que ele maltrata as estatísticas, maltrata”.

O fato de alguém não saber de onde os dados foram tirados não significa que eles não estejam corretos. Apresentei no artigo dados sobre população, produção econômica (valor adicionado fiscal) e emprego.

Os dados sobre a população vêm de duas fontes diferentes:

- Até 2017, os dados são do IBGE, principalmente dos cálculos de população estimada, números baseados no Método de Tendência, desenvolvido por Madeira e Simões.

- Para anos posteriores a 2017, obviamente não temos um número consolidado, mas uma projeção, uma tendência. Essas projeções estão disponíveis para consulta no banco de dados do IPardes (Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social) e foram feitas pelos seus especialistas em demografia, baseando-se no Modelo de Relação de Coortes (Duchesne, 1987), um modelo consensual no meio acadêmico e técnico para prever populações para o futuro. Obviamente, esses números tendem a mudar com qualquer alteração de contexto, mas demonstram de modo preciso o que ocorrerá, em termos demográficos no futuro, caso o cenário presente se mantenha.

Já os dados que apresentei sobre a produção econômica de Foz, foram obtidos através da Secretaria de Estado da Fazenda (SEFA) do Paraná. Essa variável é chamada de Valor Adicionado Fiscal (VAF), e corresponde a diferença entre o valor das saídas de mercadorias, acrescido do valor das prestações de serviços tributáveis pelo ICMS e o valor das entradas de mercadorias e serviços recebidos em uma cidade a cada ano. Diverge um pouco do PIB, mas como o PIB no Brasil, no tocante ao cálculo para cada município, é uma estimativa calculada sobre o PIB dos estados (uma fração previamente determinada), considerei que o VAF é mais preciso e pode demonstrar com mais rigor os movimentos das economias locais.

Temos o maior cuidado possível para colher os melhores dados disponíveis e fazer as análises mais precisas. Mas se alguém quiser analisar nossas memórias de cálculo para revisá-las, não temos problemas quanto a isso.

No mais, todas as nossas planilhas estarão disponíveis no livro que vamos publicar sobre o assunto em breve.

2.                “Estudo do Codefoz revelou que a cadeia produtiva do turismo já responde por mais de 1/3 dos empregos diretos e indiretos, formais e informais existentes na cidade”.

O estudo do CODEFOZ, ao qual ele (Piolla) se referiu foi um diagnóstico feito pelo excelente economista Carlos Paiva sobre a economia iguaçuense no ano de 2014, e sua afirmação de que a cadeia do turismo responde por 1/3 dos empregos de Foz está correta (com algumas ressalvas).

Em seu estudo, Paiva avalia a economia da cidade, principalmente, utilizando dados sobre pessoas ocupadas fornecidos pelo Censo 2010 do IBGE.

Atualmente, há dois meios de analisar empregos a partir dos dados oficiais: número de carteiras assinadas fornecidos pelo RAIS (Relação Anual de Informações Sociais) do Ministério do Trabalho, e o número de pessoas que se disseram ocupadas no último censo do IBGE (2010). 

Se formos analisar os empregos formais, os números são de fácil interpretação: os últimos dados consolidados do RAIS são de 2016, e nesse ano, Foz apresentou 61.031 empregos com carteira assinada, dos quais, 11.055 estão alocados nas atividades da cadeia do turismo. Isso significa que 18,11% dos trabalhadores formais estão no turismo. 

Já o censo do IBGE de 2010 apontou para 123.643 pessoas ocupadas em Foz, o que demonstra um altíssimo nível de informalidade em nossa economia. Esse mesmo censo apontou para 11.365 pessoas ocupadas em atividades de turismo e lazer direto, como pode ser visto na tabela abaixo, extraída do próprio estudo do Paiva.

Porém, Paiva explica que a simples classificação dos postos de trabalho de acordo com as categorias propostas pelo IBGE apresenta distorções. Isso porque, para chegar aos dados apresentados, por exemplo, todos os postos de trabalho associados à bares e restaurantes da cidade foram classificados como SPF (Serviços Prestados às Famílias), sendo que, parcela deles, atende ao setor do turismo.

Para corrigir essa distorção, e chegar a valores mais precisos, Paiva propõe outra classificação, na qual os postos de trabalho de cada setor seriam redistribuídos de acordo com o encadeamento e função dinâmica das atividades.

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Após realizar as correções explicadas acima, Paiva ampliou os postos alimentados pelo Turismo de 11.365 para 21.901, como pode ser visto na tabela acima (Paiva; Diagnóstico: Plano de Desenvolvimento Econômico 2014; p. 59).

Mas essa ampliação é uma estimativa: em seu próprio estudo ele deixa claro que esses cálculos realizados por eles foram, meramente, aproximativos e associados a uma margem de erro não desprezível (Paiva; Diagnóstico: Plano de Desenvolvimento Econômico 2014; p. 66).

Quando nós realizamos nossos próprios cálculos, por dois métodos diferentes (que gostaríamos de discutir futuramente em momento oportuno), chegamos a outros valores: 13.529 (o que faria com que 31,6% dos empregos da cidade dependessem, direta ou indiretamente do turismo) e 16.187 (o que faria com que 35,6% dos empregos da cidade dependessem, direta ou indiretamente do turismo).

Para encurtar a discussão aqui (e não aprofundar demais em questões secundárias nesse momento), vamos considerar a estimativa de Paiva como válida (apesar de provavelmente superestimada). Na prática, isso significaria que 42,78% das ocupações em Foz teriam ligação, direta ou indireta (estariam dentro da cadeia ou seriam um reflexo dela). Isto porque o número de empregos do turismo representa 42,78% das ocupações em atividades propulsivas da cidade. Tais atividades propulsivas são aquelas que geram todas as demais ocupações indiretamente. 

Então, a afirmação de Piolla de que “estudo do Codefoz revelou que a cadeia produtiva do turismo já responde por mais de 1/3 dos empregos diretos e indiretos, formais e informais existentes na cidade” condiz com a realidade dos números.

Mas, esse não é o ponto mais importante dessa questão.

A questão mais importante é: empregos do turismo são suficientes para promover um novo ciclo econômico em Foz, gerando desenvolvimento sustentável e de longo prazo? Eu e minha equipe, estamos convictos que não! Mas essa discussão é longa demais para ser feita nesse artigo.

Basta ver que, ao mesmo tempo em que Foz tem 61.031 empregos formais, Cascavel, uma cidade com praticamente o mesmo tamanho, tem 99.337 carteiras assinadas, e Toledo, que tem praticamente a metade de nossa população, tem 45.987.

Então, numa conta simples, para que Foz tivesse um nível de desenvolvimento semelhante ao de nossos vizinhos, precisaria oferecer mais de 90 mil empregos formais, com carteira assinada. 

E não há meios possíveis do turismo, sozinho, suprir isso.

Então, pouco importa o percentual de empregos do turismo. Sem o desenvolvimento de novas cadeias produtivas na cidade, não iremos construir um novo ciclo econômico sustentável ao longo prazo.

3.           “Um em cada quatro municípios brasileiros, segundo o IBGE, já apresenta crescimento demográfico negativo. Imaginem isso em 2044. Foz do Iguaçu não será exceção à regra”.

Essa afirmação é um exemplo de como se podem distorcer dados ou maltratar a estatística. Ao se apresentar apenas a parcela que convém de um fenômeno, pode-se induzir ao erro um leitor desatento.

Como já deixei claro em tópico anterior de onde extraímos nossos dados, vou diretamente para sua interpretação:

Quando dissemos que a população de Foz está diminuindo, é porque está mesmo. Entre 2009 e 2017, Foz apresenta o pior saldo populacional entre todas as cidades do Estado (perdeu 65.445 habitantes). Em termos proporcionais, apresentou a pior variação demográfica entre as 43 maiores cidades e ficou na 397ª posição (antepenúltimo) entre todas as cidades do Paraná (perdeu 20,13% de sua população).

É verdade que uma boa parte dos municípios já apresenta crescimento demográfico negativo: dos 399 municípios do Paraná, somente para 148 se prevê crescimento populacional entre 2017 e 2040. Porém, foi omitida a informação que os municípios que vão diminuir são, em sua grande maioria, cidades pequenas, com economias rudimentares e outras opções de trabalho. Dos 43 maiores (todos com mais de 40 mil habitantes), as únicas cidades onde se prevê redução de população são Foz, Irati, Lapa, Guarapuava, Castro, Prudentópolis, Cornélio Procópio e Jacarezinho (8 entre 43), e mesmo, entre elas, nenhuma poderia ser devidamente comparada com o porte de Foz, que é uma cidade muito maior que elas.

Bem pelo contrário, 30 desses 43 maiores municípios estão entre os 50 com maior crescimento entre 2017 e 2040. Isso demonstra que, nas próximas duas décadas, a população do estado vai se concentrar ainda mais nas cidades onde houver as melhores oportunidades de emprego e renda.

 
4.                “Nosso PIB per capita está acima da média regional. Supera, inclusive, o de Cascavel e Medianeira”.

No caso dessa última afirmação, há um misto de desconhecimento de dados atualizados com a mesma distorção de dados do tópico anterior.

Entre as 43 maiores cidade do Estado (todas aquelas com mais de 40 mil habitantes), Foz teve em 2014, o 15º maior PIB per capta (R$33.079). Como pode se observar na planilha abaixo, esse PIB per capta está realmente acima da média regional (R$31.856) e da de Cascavel (R$29.761, o 33º entre as maiores cidade do Estado), mas não é superior ao de Medianeira (R$33.162, o 6º entre as mesmas cidades), como foi afirmado. A única cidade de expressão do Oeste da qual Foz ganha nesse quesito é Cascavel.

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Esses dados, em si, não são preocupantes e em nada desqualificam nossas conclusões em nosso artigo anterior, até porque reconhecemos que a economia de Foz é grande. O problema real é sua trajetória de crescimento para o futuro, e essa tabela é um ótimo meio de demonstrar isso.

O crescimento do PIB per capta de Foz, entre os anos de 2009 e 2014, não é nem um pouco bom (69,57%). Se comparado com nossos vizinhos do Oeste, se pode perceber a gravidade da situação: no mesmo período, o PIB per capta de Marechal Cândido Rondon cresceu 121,25%, o de Medianeira 104,58%, o de Cascavel 77,04% e o de Toledo 71,29%.

Como a inflação oficial desse período foi de 40,34%, o crescimento real do PIB per capta de Foz foi realmente baixo. Nesse quesito, ficamos em 33º lugar entre as 43 maiores cidades do Estado, e em 307ª, entre todas as cidades do Estado.

Comments 2

  1. CARACAS! EU FICO IMAGINANDO UM DEBATE VIA RÁDIO ENTRE OS DOIS. SERIA UMA AULA DE MATEMÁTICA PARA A POPULAÇÃO. QUE TAL AMBOS LECIONAREM?

  2. O primeiro passo para encontrar uma solução é acertar o diagnóstico, por pior que ele seja. Parabéns por enfrentar os números.

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