Uber e a Liberdade

A operação do Uber, Garupa e outros serviços de mobilidade urbana despertou um sentimento aprisionado por muitos anos no pensamento de iguaçuenses e moradores das cidades vizinhas.  Mal acostumados ao tratamento ríspido de taxistas – sem generalizações – a preços considerados elevados e, algumas vezes, abusivos das taxas de rodagem, às limitações por falta de opções de serviços do gênero e ao ineficiente sistema de transporte público da cidade, vários internautas aproveitaram a chegada dos aplicativos para desabafar nas redes sociais e demonstrar a insatisfação com os taxistas e outros serviços do gênero.

As reclamações variam, porém seguem as mesmas premissas. Preços abusivos dos taxistas, tratamento negligente e deselegante, mau atendimento dos motoristas com posturas irônicas e desrespeitosas, modelo oligárquico do serviço na cidade, veículos inadequados, em alguns casos, além da nítida sensação de impotência mediante o descaso de muitos profissionais da categoria ante os passageiros (as).

Por outro lado, ao menos neste primeiro momento, quase 100% dos internautas elogiou a praticidade dos serviços de transporte por aplicativos. Os elogios, em quase todos os casos, remetem à comparação de preços, de maneira inevitável, aos valores cobrados pelos taxistas. Alguns internautas postaram imagens com os valores pagos no Uber em trechos percorridos na cidade em comparação aos custos estabelecidos em corridas de táxi no mesmo trajeto.

As variações, conforme as postagens, demonstraram diferenças substanciais. Em alguns trajetos, como do centro da cidade ao Aeroporto Internacional de Foz do Iguaçu, a diferença chegou a cerca de R$ 40,00. Enquanto o Uber cobrou, no máximo, R$ 22,00, uma das corridas de táxi apontadas pelos internautas atingiu até R$ 60,00, dependendo do horário e da bandeira da viagem.

Tanto reclamações, como elogios têm sido publicados nas páginas pessoais e em grupos específicos da cidade na internet. Na outra posição, dirigentes da categoria dos taxistas, lideranças políticas ligadas à classe, guias de turismo e mesmo trabalhadores do transporte escolar tentam impedir, de todo o modo, o avanço dos serviços por aplicativos.

Mesmo o instituto responsável pela coordenação do trânsito da cidade alertou os motoristas desse modelo de serviço sobre a aplicação de uma multa de mais de R$ 3 mil para quem prosseguir com a atividade. A multa, sancionada pela autoridade máxima do Executivo em dezembro de 2017, inibe o serviço. Inibe o serviço, mas não impede, certamente, a projeção cultural e a nova mentalidade de acesso à mobilidade urbana e à praticidade a favor da população, que desembarca, ainda que atrasada, na tríplice fronteira.

Tanto que nesta terça-feira, 27, taxistas, moto taxistas, guias de turismo e trabalhadores do transporte escolar de Foz do Iguaçu protestaram contra o funcionamento do Uber e demais serviços de transporte por aplicativos na cidade. O argumento, aparentemente disfarçado de medo, fobia ao novo e às mudanças do mundo moderno, pede a regulamentação do serviço na cidade. 

O Uber, em essência, mantém critérios legais e requisitos de segurança para funcionar. Nada impede de se regulamentar o serviço no município, assim como aconteceu em capitais brasileiras, a exemplo de Curitiba e São Paulo. Contudo, esse não pode ser o argumento “oficial” usado por grupos no poder, para desvirtuar ou tentar controlar o funcionamento do serviço, a favor de categorias ou classes específicas, contrapondo a própria satisfação e o desejo da população.

O bloqueio de hoje na Rodovia das Cataratas contrário a atividade dos novos serviços de transporte não bloqueou apenas a avenida, principal corredor do turismo de toda a fronteira. Mas simbolizou, sobretudo, o atual bloqueio mental de alguns grupos quanto à evolução da sociedade, dos serviços e da nova forma de pensar, fazer e agir no mundo das infinitas possibilidades.